PREFÁCIO

I

Iniciamos com o amparo de Jesus mais um despretensioso trabalho. Falar-vos-ei do orgulhoso patrício Públio Lêntulus, a fim de aprenderdes algo nas dolorosas experiências de uma alma indiferente e ingrata. Permita Deus que possamos levá-lo a bom termo.

Verificareis agora a extensão das minhas fraquezas do passado, sentindo-me, porém, confortado, em aparecer com toda a sinceridade do meu coração, perante o plenário das vossas consciências. Orai comigo, pedindo a Jesus para que eu possa completar este esforço, de modo que o plenário se dilate além do vosso meio, a fim de que a minha confissão seja um roteiro para todos.

Agradeço o precioso concurso que me vindes prestando. Tenho-me esforçado, quanto possível, para adaptar uma história tão antiga, ao sabor das expressões do mundo moderno, embora, ao relatar a verdade, sejamos levados a penetrar a essência das coisas, dos fatos e dos ensinamentos.

Para mim, essas recordações têm sido suaves, mas simultaneamente amargas. Suaves, pelas lembranças amigas; mas profundamente dolorosas, considerando o meu coração empedernido, que não soube aproveitar o minuto radioso que soara no relógio da minha vida de espírito, há dois mil anos.

Permita Jesus que eu possa atingir os fins a que me propus, apresentando neste trabalho, não uma lembrança interessante acerca da minha pobre personalidade, mas, tão somente, uma experiência para os que hoje trabalham na seara do Divino Mestre.

Jesus, cordeiro misericordioso do Pai de todas as graças, são passados dois mil anos, e a minha pobre alma ainda revive os seus dias amargurados e tristes!...

O que são dois milênios, Senhor, no relógio da eternidade?

Sinto que a tua misericórdia responde no mais íntimo da nossa consciência... Sim, o tempo é o grande tesouro do homem, e vinte séculos, como vinte existências diversas, podem ser vinte dias de provações, de experiências e de lutas redentoras.

Só a tua bondade é infinita! Somente a tua misericórdia pode abranger os séculos e os seres, porque em Ti vive a gloriosa síntese de toda a evolução terrestre, fermento divino de todas as culturas, alma sublime de todos os pensamentos.

Diante dos meus olhos desenha-se a velha Roma dos meus pesares e quedas dolorosas... Sinto-me ainda envolto na miséria das minhas fraquezas, e contemplo os monumentos das vaidades humanas... Expressões políticas, variando nas suas características de liberdade e de força, detentores da autoridade e do poder, senhores da fortuna e da inteligência, grandezas efêmeras que perduram apenas por um dia fugaz!... Tronos e púrpuras, mantos preciosos das honrarias terrestres, togas da falha justiça humana, parlamentos e decretos supostos irrevogáveis!... Em silêncio, Senhor, a confusão estabeleceu-se entre os homens inquietos e, com o mesmo desvelado amor, salvaste sempre as criaturas no instante doloroso das ruínas supremas...Deste a mão misericordiosa e imaculada aos povos mais humildes e frágeis, confundiste a ciência mentirosa de todos os tempos, humilhaste os que se consideravam grandes e poderosos!...

Sob o teu olhar compassivo, a morte abriu as suas portas de sombra, e as falsas glórias do mundo desmoronaram-se no torvelinho das ambições, reduzindo as vaidades a um acervo de cinzas!...

Ante a minha alma surgem reminiscências das construções elegantes das célebres colinas; vejo o Tibre que passa, recolhendo os detritos da grande babilônia imperial, os aquedutos, os mármores preciosos, as termas que pareciam indestrutíveis... Vejo ainda as ruas movimentadas, onde uma plebe miserável espera as graças dos grandes senhores, as esmolas de trigo e velhas roupas para se resguardarem do frio.

Regurgitam os circos... Há uma aristocracia do patriciado observando as provas elegantes do campo de Marte e, por todo o lado, das vias mais humildes aos palácios mais suntuosos, fala-se de César, o Augusto!...

Dentro dessas recordações, eu desfilo por entre aplausos, com o meu orgulho miserável... Dos véus espessos de minhas sombras, também eu não te podia ver, no Alto, onde conservas o teu poder de graças inesgotáveis...

Enquanto o grande império se desfazia em lutas intestinas, trazias o teu coração no silêncio e, como os outros, eu não percebia que vigiavas!

Permitiste que a Babel romana se erguesse muito alto, mas, quando se apresentou ameaçada a estabilidade da vida no planeta, disseste: ... “Basta... São chegados os tempos de operar na seara da Verdade”... E os grandes monumentos, com as estátuas dos deuses antigos, rolaram dos seus pedestais maravilhosos... Um sopro de morte varreu as regiões infestadas pelo vírus da ambição e do egoísmo desenfreado, despovoando-se então a grande metrópole do pecado. Ruíram os circos pavorosos; caíram os palácios; enegreceram-se os mármores luxuosos...

Bastou uma simples palavra Tua, para que os grandes senhores voltassem às margens do Tibre, como escravos misérrimos!... Perambulamos, assim, na noite, até ao dia em que nova luz brotasse na nossa consciência. Foi preciso que os séculos passassem, para aprendermos as primeiras letras da tua ciência infinita, de perdão e amor...

E aqui estamos Jesus, para louvar-te a grandeza... Para que possamos recordar-te em cada passo, ouvir a tua voz em cada som distraído do caminho, e fugirmos da sombra dolorosa... Estende-nos as mãos e fala-nos ainda do teu Reino... Temos imensa sede daquela água eterna da vida, que figuraste no ensinamento à Samaritana...

Operários do teu Evangelho, movimentando-se sob as tuas determinações suaves e sacrossantas... Ampara-nos Senhor, e não retires dos nossos ombros a cruz luminosa e redentora, que nos ajudará a sentir, nos trabalhos de cada dia, a luz eterna e imensa do teu reino de paz, concórdia e sabedoria, na caminhada de luta, solidariedade e esperança!...

Reencontrando os espíritos amigos de épocas passadas, sinto o coração alegre e confortado ao verificar a dedicação de todos com o firme propósito da evolução, pois, não é sem razão que hoje laboramos na mesma oficina de esforço e boa vontade.

Jesus recompensará o esforço amigo e sincero prestado por vós, e que a sua infinita misericórdia vos abençoe, é a minha oração de sempre.

Pedro Leopoldo, 2 de março de 1939

                                      Prefácio do livro “Há Dois Mil Anos”...

Pelo espírito Emmanuel e psicografia de Chico Xavier

 

II

Os prefácios, de uma maneira geral, apresentam autores, exaltando-lhes o mérito e comentando-lhes a personalidade, ou desenvolvem uma súmula do desenrolar da obra. Não conseguindo concatenar as ideias de maneira a idealizá-lo para esta versão do Evangelho Segundo Espiritismo, fui-me aproximando da minha biblioteca espírita, e, intuitivamente, peguei os livros: “HÁ DOIS MIL ANOS”... e “CINQUENTA ANOS DEPOIS”... Após superficial manuseio, optei pelo texto do prefácio de: “Há dois mil anos”.,., pois, no meu íntimo, naquele momento, algo me dizia ser relacionado com Emmanuel e Chico Xavier. Era uma forma singela de homenagear esses dois baluartes da doutrina espírita, ou seja, o humílimo obreiro Francisco Cândido Xavier, carinhosamente conhecido por Chico Xavier, e o seu eminente mentor e pai espiritual, Emmanuel, pelos quais nutro elevada admiração, e que tiveram papel preponderante e decisivo no conhecimento e expansão do Espiritismo.

Achei o texto oportuno e adequado ao contexto desta maravilhosa obra de Kardec, onde se faz a síntese da odisséia do senador romano Públio Lêntulus (Emmanuel), contemporâneo de Cristo, mas que, no alto da sua arrogância intelectual e posição social em que se encontrava, não conseguiu compreender nem aceitar os ensinamentos morais do Divino Mestre, necessitando séculos de existências sofredoras para se resignar à evidência da realidade Divina. A humildade conquistada por esse generoso espírito vem demonstrar que no plano espiritual vivencia-se também o esforço, a paciência e a fé para as realizações.

Numa rápida visualização mental, assistimos à derrocada do famoso Império Romano, após o clímax da sua estrutura administrativa imperial e decadência moral, pela simples intervenção divina, constatando-se inequivocamente a pequenez e o ínfimo poder do homem; e que nada acontece por acaso.

A nossa sensibilidade espiritual e intuitiva levou-nos a esta opção, pois que, no desenvolvimento deste estudo, iremos encontrar um manancial de ensinamentos em que se evidencia a razão de causa e efeito dos nossos atos, a nível individual e de nação, determinantes na trajetória da nossa caminhada evolutiva, acrescido por textos de espíritos superiores, ensejando-nos a compreensão das dificuldades, sobretudo do desfecho final da vida terrena - a morte física ou desencarne - quase sempre de difícil aceitação em determinadas circunstâncias.

III

Após o êxito alcançado pela tradução de “O Livro dos Espíritos” de nossa autoria, aplaudida pelos que tiveram a curiosidade e a humildade de conhecê-la na íntegra, despertou-nos a convicção de que a nossa tarefa, indigitada pela espiritualidade, deveria prosseguir com as restantes obras de Kardec.

Nesse sentido, concedemos a primazia do nosso segundo trabalho ao “Evangelho Segundo o Espiritismo”, por acharmos ser o mais solicitado no âmbito da literatura espírita. Algumas inovações foram introduzidas, mas, sem descaracterizar, de maneira alguma, a integridade do seu conteúdo.

O original francês de 1997 que nos serviu de guia, não contém a “Introdução”, nem o CAP XXVIII, das preces, tradicionais nas traduções brasileiras, originadas das primeiras edições de Kardec. Não obstante, mantivemos as “Notas históricas”, para melhor compreensão do texto.

Porém, obedecendo a um desenvolvimento criterioso do contexto, introduzimos uma “Síntese biográfica de Allan Kardec”, “Como tudo começou”... e, “A você que está chegando”, texto este muito bem elaborado pela nossa querida confreira Joana Abranches, de Victória (ES), despertando-me o interesse em mencioná-lo, após a respectiva autorização de publicação. Muito oportuno para quem deseja aproximar-se de uma casa ou centro espírita e tenha algum receio ou preconceito.

O texto dos “capítulos” dos evangelhos está em itálico e em conformidade com a Bíblia de Jerusalém, a mais fiel aos textos originais, segundo o pesquisador espírita de religiões Severino Celestino da Silva. Uma vez que o cap. XXVIII não consta do n/original, como já dissemos, substituímo-lo por preces mais consentâneas ao espiritismo, além de poemas e poesias espiritualistas. Os grifados são de nossa autoria, evidenciando alguma palavra ou frase.

Como desfecho, e para abrilhantar esta notável obra, brindamos os leitores e confrades, com um Apêndice, onde se descrevem alguns dos mais importantes lugares bíblicos.

Desejamos ardentemente, que este contexto em nova dimensão linguística, corresponda aos melhores anseios e expectativas.

Ribeirão Preto, 06 de Fevereiro de 2011

Alberto Maçorano

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