ORAÇÃO DE UMA CAMPONESA DE MADAGASCAR...

 

Senhor!

Dono das panelas e marmitas!

Não posso ser a santa que medita aos vossos pés,

Não posso bordar toalhas para o vosso altar,

Então, que eu seja santa ao pé do meu fogão...

Que o vosso amor esquente a chama que eu acendi,

E faça calar a vontade de gemer a minha miséria.

Eu tenho as mãos de Marta

Mas quero ter também a alma de Maria.

Quando eu lavar o chão,

Lavai Senhor, os meus pecados...

Quando eu puser na mesa a comida,

Comei também, Senhor, junto conosco...

É ao meu Senhor que eu sirvo,

Servindo a minha família...

            Quanta simplicidade nesta “Oração de uma camponesa de Madagascar”. E sabemos que é na simplicidade que residem as grandes almas. Ao recebê-la, fiquei sensibilizado pela mensagem simples e humilde; de imediato, tive a intuição de colocá-la nesta minha apresentação da nova tradução de “O Livro dos Espíritos”.          

Muitos dirão: porquê, uma nova tradução? Quando existem algumas, consideradas até, consagradas e intocáveis? Serão mesmo? Como dizia Charlie Chaplin: “Não devemos ter medo dos confrontos, até os planetas se chocam, e do caos nascem as estrelas”...Então, da mesma maneira que a ciência evolui embasada nos conhecimentos adquiridos, acreditamos que o uso da palavra articulada ou escrita, como meio de comunicação, evolui também, em função dos costumes e da época. Assim, inserido na lei do progresso, intrínseca à essência do espiritismo e, com as avançadas ferramentas eletrónicas ao nosso dispor, em paralelo com a moderna linguagem, acreditámos que poderíamos desenvolver um trabalho adequado à atualidade linguística e substantiva das obras de Kardec, objetivando a simplicidade e a clareza. Solicitada autorização à espiritualidade, foi-nos dito que “tudo que seja feito para melhoria e aperfeiçoamento, será sempre bem vindo”... Nascia assim este nosso projeto.

            Qualquer trabalho literário deve ser avaliado no seu todo, e isso não poderá ser feito sem que haja uma leitura na íntegra. Só assim, poderemos conceber um juízo de valor da obra, por inteiro. Felizmente, todos aqueles que já tiveram a curiosidade e a humildade de a ler, foram unânimes em ressaltar o salto de qualidade.

Além do mais, a nossa preocupação consistiu sempre em redigir de maneira que houvesse uma maior percepção para os menos letrados e, ao mesmo tempo, motivadora aos de grau académico superior.

            Numa época em que a conquista da livre expressão do pensamento é tida, e com razão, em tão alta estima, não concebemos, nas hostes do espiritismo, entidades ou personalidades inibidoras da divulgação de qualquer trabalho literário. Não aceitamos pseudo-censores de obras e publicações espíritas de qualquer natureza. Ninguém foi incumbido dessa tarefa pela espiritualidade. Não podemos ser julgados pelos nossos iguais, moral e intelectualmente. Os únicos juízes serão sempre o público consumidor e o plano espiritual. É no espiritismo que melhor aprendemos o que é o livre-arbítrio. É também o espiritismo que ensina sermos os únicos responsáveis pelas nossas vidas e, como tal, colheremos sempre aquilo que plantarmos.

Ninguém pode considerar-se verdadeiramente espírita, sem ter lido e compreendido as obras de Kardec. Consideramos de suma importância, disponibilizá-la e disseminá-la pelos quatro cantos deste vastíssimo país.

Está mais do que na hora em seguirmos a orientação de Emmanuel, quando disse que a melhor caridade que se pode fazer pelo espiritismo é a sua divulgação. Não nos percamos em querelas intestinas e desnecessárias, e retóricas sem fim, envolvendo a temática científica, filosófica e religiosa da tese espírita, quando o nosso irmão do lado requer a nossa ajuda e o nosso conforto, quando grassa tanto desequilíbrio no mundo que nos cerca, tantos desmandos, tanta promiscuidade, prostituição, corrupção e marginalidade; tanta fome e miséria, tanta irresponsabilidade, tanta falta de amor e tanta banalidade nas relações familiares, tirando-se a vida de um ser humano com a maior frieza e tranquilidade. Quem sabe! Que a palavra de convicção da vida após a morte, e a certeza de que não se fica impune às atrocidades cometidas, seja simplesmente, o suficiente, para que não se consuma um ato irrefletido prestes a acontecer...

Temos em nossas mãos a maior ferramenta de esclarecimento e persuasão da razão existencial, que é o espiritismo. Porém, mais importante do que isso, é a nossa postura moral e de princípios. Façamos um esforço de coerência nas nossas atitudes e comportamentos. Saibamos aproveitar a soberana oportunidade de transformarmos o espiritismo na maior arma de persuasão e contributo para o apaziguamento das grandes tensões vivenciadas no mundo contemporâneo, ao nível de famílias, sociedades e nações. O espiritismo não se compadece com sentimentalismos ou personalismos de quem quer que seja. O simples contributo de cada um para a sua difusão, será sempre de grande valia, sobretudo, para o seu próprio aprimoramento. Elevemos o espiritismo ao lugar de destaque que merece e justifica.

Sejamos fiéis aos verdadeiros ideais espíritas, renovando-nos e aperfeiçoando-nos constantemente, e, para isso, a obra de Kardec será sempre o roteiro dessa trajetória, a bússola orientadora, cujo conteúdo jamais deixará de ser atual. Com efeito, a sua obra será para todo o sempre um marco imorredouro na história da civilização e, como tal, deverá constar dos livros de cabeceira e consulta permanente, dos que escolherem o espiritismo como opção religiosa, ou daqueles que não o sendo ainda, tenham vontade de ampliar o horizonte dos seus conhecimentos religiosos e existenciais.

Dignifiquemos a designação de espíritas!

A palavra esclarece, mas o exemplo arrebata!

É aqui que reside a nossa grande responsabilidade, disseminar tanto quanto possível a mensagem espírita contida no conceito da certeza da vida após a morte, na pluralidade das existências, bem como na lei de ação e reação. As grandes dissertações filosóficas e científicas ficarão por conta da evolução própria de cada um.

Em quaisquer circunstâncias, deverá prevalecer sempre o amor, a caridade, a fraternidade, a solidariedade e a tolerância. Enfim... O respeito mútuo perante as diferenças.

Caminharemos assim no infinito das nossas vidas até à plenitude moral, conquistando o merecimento de participarmos do ministério divino, na infinita obra da criação.

Façamos do espiritismo, não a doutrina do futuro, mas. a doutrina do presente.

 

 

Alberto Maçorano

 

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